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Porto não é só terminal, é ecossistema

Fonte: A Tribuna On-line / Roberto Teller*
 
O ano começa duro, tenso e carregado de incertezas
 
O ano começa duro, tenso e carregado de incertezas. 2026 nasce sob uma geopolítica mais agressiva, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retomando uma agenda de confronto direto, agora mirando a Venezuela, com a prisão de Maduro e seus efeitos imediatos sobre energia, rotas marítimas e a previsibilidade das cadeias globais. Quem acredita que isso não chega aos portos brasileiros está olhando apenas para o cais, e não para o ecossistema que sustenta cada operação, cada emprego e cada decisão.
 
Porto nunca foi só terminal. Nunca foi apenas berço, guindaste, pátio e gate. Porto é gente que acorda de madrugada, é cidade pressionada, é estrada saturada, é ferrovia insuficiente, é retroárea, Redex, transportadoras, é operador no limite, é autoridade portuária, são órgãos anuentes, é tecnologia, é formação profissional, é governança e, acima de tudo, é decisão. Quando uma dessas peças falha, todo o sistema sente. E em 2026, esse sistema será testado como há muito tempo não se via.
 
O Brasil entra neste novo ciclo com um paradoxo perigoso. O comércio exterior segue crescendo, impulsionado pelo agronegócio, pela indústria e pela reorganização das cadeias globais, enquanto a infraestrutura urbana, logística e humana continua fragmentada. Investimos bilhões em concreto, mas seguimos subinvestindo em integração, inteligência operacional e desenvolvimento das pessoas. O resultado é um porto que cresce para fora, mas se fragiliza por dentro, pressionando a cidade, os acessos e a própria competitividade do País.
 
A transformação digital chegou aos portos, mas de forma desigual e, muitas vezes, superficial. Fala-se muito em inteligência artificial, automação e Digital Twin, mas pouco se discute o essencial, a capacidade real de usar essas ferramentas para planejar melhor, simular cenários complexos e antecipar gargalos antes que eles se tornem crises operacionais, sociais ou políticas. Um gêmeo digital não é um painel bonito para apresentações, é um instrumento vivo de decisão integrada. IA não é moda nem discurso de inovação, é disciplina, método e cultura orientada a dados. Sem isso, vira apenas marketing tecnológico caro, que não resolve o problema real.
 
Num cenário internacional mais instável, com cadeias de suprimento sendo redesenhadas por critérios de risco geopolítico e não apenas de custo, os portos que sobreviverão serão aqueles capazes de atuar como ecossistemas inteligentes e resilientes. Isso exige sincronizar terminal com retroporto, porto com cidade, operação com mobilidade urbana, crescimento com qualidade de vida. Exige sair da lógica do projeto isolado e entrar definitivamente na lógica do plano de Estado, contínuo, suprapartidário e executável.
 
O Porto de Santos é o maior ativo logístico do País. Movimenta mais de um quarto do comércio exterior brasileiro e sustenta milhares de empregos diretos e indiretos. Ainda assim, carrega uma dívida histórica com sua própria cidade. Crescemos sem integrar, ampliamos sem planejar, prometemos sem executar. O resultado é um ambiente onde todos conhecem os problemas, muitos debatem soluções, mas poucos assumem o desconforto de liderar, conectar interesses e transformar intenção em ação concreta.
 
Se 2026 quiser ser diferente, precisará ir além do discurso confortável. Algumas decisões inéditas precisam entrar na mesa. Criar uma governança única de fluxo logístico urbano portuário, integrando dados em tempo real de acessos, pátios e terminais. Implantar um Digital Twin sistêmico do ecossistema porto-cidade, e não apenas de ativos isolados. Vincular qualquer incremento de capacidade portuária a contrapartidas obrigatórias em mobilidade, qualificação profissional e inteligência operacional. Estabelecer um programa contínuo de formação de lideranças públicas e privadas capazes de pensar o Porto como sistema, e não como feudo. Criar um fórum permanente de decisão, com poder real, não consultivo, para destravar soluções e assumir responsabilidades.
 
2026 não será um ano de acomodação. Será de escolhas difíceis. Ou seguimos tratando o porto como um conjunto de terminais disputando espaço, ou assumimos de vez que porto é ecossistema, e ecossistemas exigem governança madura, visão sistêmica e coragem para decidir. Porto não é só terminal. Porto é um organismo vivo. E organismos que não se adaptam adoecem. O tempo da complacência acabou. Quem continuar olhando apenas para o próprio cais talvez não perceba quando o sistema inteiro começar a parar.
 
*Roberto Teller, diretor de Operações da Movecta
 
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna. As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.
 

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