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02/03/2015 - 00h37

Porto de Santos resgata seu passado


Fonte: A Tribuna

Projeto do Museu do Porto recupera 700 negativos de vidro com imagens históricas do complexo

 
Imagens de navios, da construção do Porto de Santos e de momentos históricos para a Cidade, como a inauguração do primeiro canal santista, fazem parte do acervo que foi desvendado e agora está ao alcance da população. Isto aconteceu graças à reprodução de 700 negativos de vidro, que pertenciam à antiga Companhia Docas de Santos (CDS) e, agora, estão disponíveis no site do Complexo Cultural do Porto de Santos (www.museudoportodesantos.com.br).
 
Criado em 1º de setembro de 1989, como parte do Programa de Preservação do Patrimônio Histórico, do Ministério dos Transportes (que, à época, administrava os portos), o museu fica ao lado da sede da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp, que, em 1980, substituiu a CDS na gestão do Porto), na Avenida Rodrigues Alves. No local, estão em exposição cerca de 8 mil peças.
 
“A CDS, até 1980, teve muito carinho não só com suas coisas internas, mas fundamentalmente com as coisas do entorno. Ela ajudou a comunidade,  con-
tribuindo com  esco-
las, hospitais, o pré-
dio dos Correios, a sede da Alfândega e até igrejas. Ela sem-
pre esteve envolvida não só nessas instituições, mas fundamentalmente nos projetos com a comunidade. E tinha um carinho muito especial por seu corpo interno, porque seu maior patrimônio era o seu pessoal. Isso foi sendo desenvolvido e algumas coisas foram guardadas. Algumas dessas riquezas foram os negativos de vidro, porque eles contam a história que foi preservada”, explicou o gerente do Complexo Cultural do Porto, Antonio Carlos da Mata Barreto.
 
O resgate do acervo fotográfico foi possível graças a uma parceria com a Comunica Relações Públicas, de Ribeirão Preto. Com autorização da Codesp, a empresa inscreveu o projeto de recuperação dos negativos de vidro no Programa de Ação Cultural (Proac) do Governo do Estado, na categoria “preservação de acervos”, e foi a vencedora. Como prêmio, recebeu R$ 137,5 mil para realizar o trabalho e a contrapartida do projeto é a ampla divulgação do material histórico.
 
Imagens
 
As fotografias remetem ao período entre 1901 até meados da década de 40. Nesta fase, a CDS realizou diversas empreitadas em Santos: ergueu armazéns internos e externos do Porto, construiu os silos de trigo e prédios administrativos e operacionais, fez pátios de movimentação de cargas e instalou os tanques de combustíveis da Ilha Barnabé, além de ter construído a Usina Hidrelétrica de Itatinga, que fica em Bertioga e até hoje transmite energia elétrica para o complexo santista.
 
“Nós guardamos os negativos de vidro, guardamos por muito tempo. Mas eles estavam mal acondicionados e precisávamos de recursos para recuperá-los. Através da Comunica, fizemos um trabalho para entrar no Proac e eles fizeram toda uma logística para que isso desse certo”, explicou Mata Barreto.
 
A tarefa foi árdua. Antes da recuperação das imagens, os técnicos precisaram higienizar os negativos. Além disso, foi necessário reorganizá-los. Em seguida, começaram as etapas da melhoria e de digitalização das fotografias.
 
Interatividade
 
A recuperação dos 700 negativos de vidro faz parte do projeto para aumentar a interatividade do Museu do Porto de Santos. Agora, todas as fotos poderão ser acessadas, em baixa resolução, através do endereço eletrônico: www.museudoportodesantos.com.br/pesquisa-acervo.
 
“No Museu da História, que fica no Rio de Janeiro, você fala com Dom Pedro. Isso é interatividade. Os museus mais visitados são os mais interativos, como o caso do Museu da Língua Portuguesa, o do Futebol e agora o Museu Pelé, aqui em Santos. E tem muitas formas de interagir através da educação e até de tornar essas fotos acessíveis”, explicou Mata Barreto
 
Acervo é ‘verdadeiro tesouro’, diz historiadora
 
“Eu ainda não vi essas fotos, mas um acervo de 700 negativos de vidro é um manancial, um verdadeiro tesouro que conta a história do Porto de Santos e da Cidade”, destacou a historiadora Wilma Therezinha Fernandes de Andrade, professora da Universidade Católica de Santos. Para ela, com a análise das fotografias reproduzidas, será possível conhecer várias características do momento em que elas foram feitas.
 
Wilma Therezinha relembra a frase do historiador francês Roland Barthes, que considerava a fotografia como um “documento sem retórica”. “Quando se analisa uma fotografia, primeiro a pessoa dá uma olhada, vê o que foi fotografado e tem prazer em olhar a foto. Já para o pesquisador, a foto tem que ser analisada. É como se tivesse lendo um documento escrito, o que a gente chama de crítica histórica”, explicou a historiadora, já curiosa para conhecer
o acervo.
 
E a professora destaca: tão importante quanto disponibilizar a foto é identificar dados da imagem. As pessoas fotografadas, os locais, a data e o motivo do registro são as informações mais importantes na hora de contar a história. Por isso, ela costuma dar uma dica a seus amigos e alunos. “Façam um grande favor para os historiadores futuros. Anotar onde foi tirada a foto, quem está fotografado, a data e quem é o fotógrafo são informações importantíssimas e muito difíceis de encontrar”.
 
A historiadora enfatiza a importância de se colocar o acervo à disposição. “Mostra a disposição das instituições culturais e governamentais de abrirem sua documentação, como jornais estão disponibilizando. É uma boa notícia para historiadores e para quem tem curiosidade, interesse, estuda ou quem quer conhecer da história da Cidade”, afirmou.
 
Projeto prevê identificar dados das fotografias
 
A segunda etapa do projeto de recuperação dos 700 negativos de vidro do Museu do Porto de Santos envolve identificar as imagens, seus personagens e localizações. Isto porque a maioria das fotografias não registra essas informações com precisão. Para a diretora da Comunica Relações Públicas e produtora executiva do projeto, Maria do Carmo Esteves, além da identificação, será necessária uma pesquisa aprofundada sobre a história das fotos.
 
“A expressão dessas imagens me deixou encantada. É uma riqueza que não é comum. Os pesquisadores já buscavam esse acervo do Museu do Porto para pesquisa, mas poucos tinham acesso”, destacou a produtora executiva.
 
De acordo com o gerente do Complexo Cultural do Porto, Antonio Carlos da Mata Barreto, a fase de identificação das fotos terá a participação de ex-funcionários da Companhia Docas de Santos (CDS). Ele afirma que só será possível reconhecer alguns personagens com a ajuda dessa “memória viva do cais santista”.
 
“A gente quer continuar na garimpagem porque ela é eterna. Agora, queremos criar um sistema porque museu, hoje, é interativo. E a interatividade não se dá tão somente no processo digitalizado ou informatizado, mas com a interação das pessoas que tem o poder ou a condição de contar suas histórias”, afirmou Mata Barreto.