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06/04/2026 - 11h35

A nova fronteira da competitividade passa pela energia


Fonte: BE News / Bruno Galoti Orlandi *
 
A convergência entre essa base energética existente e as novas demandas globais evidencia que Santos reúne condições concretas para avançar nessa agenda.
 
A transição energética deixou de ser uma agenda restrita ao campo ambiental e passou a ocupar posição central nas estratégias de desenvolvimento econômico. Em um cenário global cada vez mais orientado pela descarbonização, setores intensivos em infraestrutura, como a logística e o transporte marítimo, estão no centro dessa transformação. Os portos, nesse contexto, assumem papel decisivo não apenas como pontos de passagem de mercadorias, mas como plataformas estratégicas para a construção de uma nova matriz energética mais limpa e eficiente.
 
A pressão por redução de emissões no transporte marítimo já produz mudanças concretas na operação portuária ao redor do mundo. Um dos exemplos mais evidentes é a eletrificação de cais, por meio de sistemas conhecidos como Onshore Power Supply (OPS), que permitem que navios atracados desliguem seus motores e se conectem à rede elétrica em terra. Essa solução reduz de forma significativa a emissão de poluentes durante a estadia das embarcações, além de minimizar ruídos e impactos urbanos. Trata-se de uma tendência consolidada em diversos portos internacionais, especialmente no segmento de cruzeiros, e que aponta para um novo padrão operacional no setor. 
 
Esse movimento global já começa a se refletir também no Brasil. Estudo recente da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) indica que portos brasileiros vêm adotando incentivos para embarcações com menor pegada de carbono, como descontos tarifários e prioridade de atracação. Trata-se de uma mudança relevante de lógica: a sustentabilidade deixa de ser apenas uma diretriz institucional e passa a influenciar diretamente decisões operacionais, competitividade e atração de cargas.
 
Nesse cenário, o debate sobre infraestrutura portuária ganha uma nova dimensão. Não se trata apenas de ampliar capacidade ou modernizar terminais, mas de preparar os portos para uma nova realidade energética. Isso envolve planejamento, investimentos e, sobretudo, a capacidade de integrar inovação com viabilidade econômica. A transição energética no setor logístico exige soluções que sejam, ao mesmo tempo, sustentáveis e competitivas.
 
O Porto de Santos, pela sua escala e relevância, reúne condições únicas para assumir protagonismo nesse processo. Por onde passa cerca de 30% da corrente comercial brasileira, o complexo portuário possui não apenas importância operacional, mas também capacidade de influenciar padrões e induzir transformações no setor. 
 
Nesse contexto, um ativo histórico ganha nova relevância: a Usina de Itatinga. Responsável por abastecer o porto há mais de um século, a usina representa um exemplo concreto de integração entre infraestrutura portuária e geração de energia. Atualmente, com estudos em andamento para sua concessão e modernização, abre-se uma oportunidade para reposicionar esse ativo dentro de uma nova lógica energética. Iniciativas que envolvem repotencialização e até mesmo a produção de hidrogênio verde apontam para a possibilidade de transformar Itatinga em um elemento estratégico na transição energética do setor. Esse movimento já começa a se refletir na prática, com a energia da usina sendo utilizada no cais para a operação de rebocadores, reduzindo o uso de combustíveis fósseis nas atividades portuárias.
 
A convergência entre essa base energética existente e as novas demandas globais evidencia que Santos reúne condições concretas para avançar nessa agenda. O porto pode se posicionar como referência nacional na adoção de soluções voltadas à redução de emissões e à modernização energética das operações.
 
Na prática, sabemos que os desafios são significativos e que a implementação de novas tecnologias exige investimentos elevados, segurança regulatória e planejamento de longo prazo. A adaptação da infraestrutura existente, a ampliação da oferta de energia e a coordenação entre diferentes agentes públicos e privados são fatores determinantes para o sucesso desse processo. Não por acaso, essa é uma agenda já incorporada ao plano de metas da Secretaria de Assuntos Portuários e Emprego de Santos, que inclui a participação ativa em reuniões e fóruns sobre a matriz energética nacional, reforçando o compromisso do município com esse processo de transformação.
 
O Brasil reúne condições favoráveis para avançar nesse caminho. A diversidade da matriz energética, a relevância do setor portuário e a escala da produção nacional formam uma base sólida para a construção de soluções sustentáveis. No entanto, transformar esse potencial em vantagem competitiva exige visão estratégica e capacidade de execução.
 
A transição energética, portanto, já não é uma agenda futura. Ela está em curso e passa a influenciar diretamente a dinâmica dos portos, das cadeias logísticas e do comércio internacional. Os Portos que se anteciparem a esse movimento tendem a ocupar posições estratégicas em um cenário cada vez mais exigente.
 
Esse processo, no entanto, não se encerra na dimensão energética. Ele abre espaço para uma discussão mais ampla, que envolve governança, responsabilidade e novos padrões de desenvolvimento. Uma agenda que vai além da infraestrutura e que, pela sua relevância, convida a uma reflexão mais aprofundada.
 
*Bruno Galoti Orlandi, advogado e Secretário Municipal de Assuntos Portuários e Emprego de Santos. Escreve quinzenalmente para o BE News.