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18/03/2026 - 09h24

Cônsul dos EUA sugere que empresa chinesa não pode vencer leilão de megaterminal em Santos


Fonte: Folha de S. Paulo
 
• Kevin Murakami discursou para empresários do setor portuário na semana passada
 
• OUTRO LADO: Consulado nega pressão, mas diz que governo dos EUA tem preocupações quanto à participação de chineses no leilão
 
Três empresários portuários presentes em palestra do cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Kevin Murakami, se surpreenderam com o discurso do diplomata. Ele passou a mensagem de que o Tecon 10, o megaterminal do porto de Santos, não pode cair em mãos indesejadas.
 
Os representantes do setor consideraram que o recado foi claro: não é interesse do governo norte-americano que uma empresa chinesa vença o leilão, que ainda não tem data para acontecer.
 
O cônsul foi a Santos no último dia 5, em evento do Grupo A Tribuna, o principal órgão de comunicação da Baixada Santista. Dirigentes portuários e donos de empresas do setor foram convidados.
 
Ele disse também que o porto é estratégico para os Estados Unidos e tem um papel geopolítico, especialmente no combate ao crime organizado. Mas este era um discurso esperado. O que surpreendeu os presentes foi a questão do leilão do Tecon 10. Não há nenhuma empresa norte-americana lembrada como uma das favoritas para o certame.
 
O recado foi mais um da disputa pelo poder de influência entre Estados Unidos e China durante o governo Trump. Passa também pelo modelo do leilão que será adotado. Após repetidos adiamentos, não há uma data para o lançamento do edital.
 
A sugestão de Murakami pode, no fim, favorecer armadores europeus, como a dinamarquesa Maersk e a suíça MSC.
 
A coluna entrou em contato com o Murakami por WhatsApp. Ele solicitou que o pedido de entrevista fosse enviado à assessoria de imprensa do consulado. Após conversas por mensagens e telefone, o órgão disse que não iria comentar.
 
Após a publicação deste texto, o consulado enviou email em que reconhece que o governo dos EUA tem "preocupações em relação à participação de empresas chinesas no leilão, relacionadas à soberania, segurança, competição e alavancagem estratégica."
 
Como mencionado pela coluna, o consulado também diz que as atividades do crime organizado foram abordadas, assim como o comércio bilateral entre os dois países e a importância do porto de Santos para esta relação "uma vez que parte significativa desse comércio passa pelo porto."
 
O consulado nega que Murakami tenha feito uma pressão a respeito do resultado do leilão.
 
A recomendação do TCU é que o leilão aconteça em duas fases, sem a presença de nenhum armador na rodada inicial. Isso, na prática, os excluiria da disputa, já que uma concessão desse porte dificilmente não seria encerrado na primeira fase. É uma versão ainda mais restritiva do que a da Antaq.
 
O órgão regulador pediu que a concessão seja definida também de forma faseada, mas estariam alijados da disputa apenas os armadores incumbentes, aqueles que já são donos de terminais em Santos. Uma questão que atingiria especialmente Maersk e MSC.
 
As duas fazem pressão por um leilão sem restrições em fase única. Contam com isso com apoio do parlamento europeu e de setores do governo Lula, mas não do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho.
 
Armadores chineses fazem lobby com ministros e integrantes do governo federal para que possam participar, que é o temor manifestado pelo cônsul-geral norte-americano em São Paulo.