Fonte: A Tribuna On-line
Quem trabalha no setor que move a economia nacional relembra transformações e destaca oportunidades
Em meio ao vaivém de cargas que rumam para além do horizonte em grandes navios, chegam e saem de caminhão, trem ou embarcação, passam por esteira, empilhadeira e contêineres, você já se perguntou quem é que faz essa gigantesca roda girar? Invariavelmente, a resposta passa pela gente do porto, indo desde a área administrativa até o setor operacional. E hoje é dia de festa para esse pessoal, pois se celebra no Brasil o Dia do Trabalhador Portuário.
A data é alusiva à abertura dos portos brasileiros às nações amigas, instituída por meio de decreto assinado por dom João VI, em 1808. Mais de 200 anos depois, o setor que move a economia nacional envolve profissionais diversos, que atuam direta ou indiretamente na movimentação das mercadorias de exportação e de importação. Em comum, ao menos no caso dos portuários entrevistados por A Tribuna, está o amor pelo Porto de Santos.
Quatro décadas de dedicação
O gerente de segurança aduaneira Remildo de Souza Matos, de 64 anos, tem quatro décadas de carreira dedicadas à atividade portuária e vivenciou as transformações no Porto de Santos. Ingressou no setor como funcionário da então Companhia Docas de Santos (CDS), extinta empresa privada que durou 94 anos (1886 a 1980), e seguiu na Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), onde permaneceu até entrar na Santos Brasil, há 25 anos.
“Participei da privatização (operacional) da Codesp em 1997, quando a Santos Brasil assumiu a concessão da área do Terminal de Contêineres (Tecon) de Santos, o primeiro do Brasil, mas que na época, por ser estatal, não era competitivo. Com a empresa, isso mudou, houve crescimento e eu cresci junto. Iniciei como supervisor, coordenador e hoje sou gerente de uma importantíssima área, a de segurança aduaneira”.
Remildo revelou as razões que o fazem amar o setor portuário. “Sou suspeito para falar do porto, pois ele é gratificante e lindo. Os navios entrando e saindo com suas características gigantes são um verdadeiro show. Principalmente, em um terminal de contêineres, com portêineres, stacker e outros equipamentos. Amo o que eu faço e este é o segredo de estar há 40 anos no porto. Um amor que foi transmitido ao meu filho, que também trabalha no setor”.
A quem sonha em dar novos passos na carreira, o portuário não tem dúvidas ao indicar o setor. “Todas as minhas conquistas pessoais foram conseguidas por meio do porto, seja pela Codesp ou pela Santos Brasil. O setor nunca para de crescer e há uma transformação continua, sempre com novos terminais e áreas expandidas constantemente. Recomendo, desde que trabalhando com muito empenho e dedicação”.
Amor, independentemente do tempo
Assim como Remildo, o estivador Flávio Nei de Araujo, de 65 anos, também vivenciou as mudanças, mas diretamente do cais. “O porto significa tudo na minha vida. Tenho orgulho de trabalhar como estivador. Já fiz todo tipo de operação, mas a que mais gosto é nos navios ro-ro. A gente conhece cada canto da embarcação”, relatou Flavio Nei, explicando que, neste tipo de operação, os trabalhadores portuários avulsos manobram os veículos para dentro da embarcação e atuam na descarga também.
Olhando para trás, o estivador contou que a mudança na forma de escalação de trabalho foi o que mais o impactou. Flávio é do tempo da escala no grito, realizada na chamada parede, nos armazéns do Porto de Santos. A parede foi extinta com a Lei de Modernização dos Portos, de 1993, e a criação do Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo), que passou a gerenciar as escalas dos avulsos. “Era bem melhor no grito, mas a gente foi se adequando à modernidade”, ponderou.
Gostar do ofício no setor que impulsiona o desenvolvimento no País independe do tempo de serviço. É o caso da jornalista Milena de Castro Silveira, de 62 anos, que trabalha há uma década neste segmento. Quando chegou ao setor portuário, contribuiu para a expansão da comunicação corporativa e a representatividade feminina. Hoje, é gerente de Comunicação e Relações Institucionais da Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados (Abtra).
“Atuo na representação institucional de 45 empresas associadas do setor portuário. Em 10 anos, tive a oportunidade de participar de atividades memoráveis. Quando fui convidada para montar o time de comunicação em um terminal, poucas empresas no Porto de Santos contavam com profissionais desse ramo e a comunicação corporativa estava longe de ser entendida como área estratégica. Também não era comum mulheres em cargos de chefia”, contou Milena.
Sobre recomendar o setor portuário àqueles que ainda não escolheram uma profissão ou estão em transição de carreira, Milena observa que, “no porto, há lugar para todas as profissões, pois se trata de um local de inovação, onde gente competente e aberta a novos desafios tem grande chance de crescer”. “As pessoas que trabalham no porto são flechadas por um 'cupido' que sai dos contêineres e nunca mais deixam o setor. Eu sou uma delas. A minha vida passa pelo Porto de Santos”, resumiu.