Fonte: InfoMoney
Maiores produtores privados de energia no Brasil, as estatais chinesas estão presentes ainda em campos do pré-sal, além do controle de portos como Paranaguá
Foi em 2014 que a seguradora chinesa Anbang assumiu o controle do tradicional hotel Waldorf Astoria em Nova York. Por US$ 2 bilhões, um hotel simbólico se tornaria um marco da expansão chinesa no ocidente.
A prática, porém, não é isolada. Na China, os chamados “rinocerontes cinzas”, são grupos privados que se expandem globalmente por meio de crédito barato no país. Não raro, os grupos como a HNA, Wanda Group, Anbang, enfrentam problemas financeiros dada sua elevada alavancagem, promovendo uma dança das cadeiras. Saem os grupos privados, entram as estatais comprando os ativos.
Apesar de menores em número de projetos, os chineses já investem mais no Brasil do que americanos ou japoneses e canadenses, cuja presença no país já está estabelecida há décadas.
Diferente dos americanos também, chineses têm atuado por aqui, ao menos neste primeiro momento, por meio da compra de participações em projetos locais, seja majoritária ou minoritária, como os campos do pré-sal adquiridos durante o leilão de Libra.
As aquisições também se diferenciam daquelas feitas via comércio. Neste campo, a China ultrapassou os Estados Unidos, se tornando o maior parceiro comercial brasileiro, especialmente após sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001.
Por meio dessa participação, a China buscou ao redor do planeta seu reconhecimento como “economia de mercado”. Na prática, este reconhecimento, que nem todos os países deram ao gigante asiático, tem um impacto significativo no seu crescimento e no aumento da fatia chinesa no comércio internacional.
Ser reconhecida como uma economia de mercado garante para a China que, em avaliações de práticas como dumping (quando um produto é vendido abaixo do seu preço normal para ganhar fatia de mercado), os preços do país possam ser considerados.
Inúmeros argumentam que não se pode considerar os preços chineses, mas sim exemplos de outros países, uma vez que os preços na China sofrem forte influência do Estado, logo, não são de mercado.
De volta à questão de investimento externo, porém, o país tem atuado no Brasil por duas frentes, com resultados distintos.
Os rinocerontes cinzas, grupos privados, compraram fatias consideráveis em áreas como aviação, infraestrutura e finanças.
Como no caso da Anbang, o HNA Group sofreu com problemas de liquidez, tendo de se desfazer de suas participações.
Estatais chinesas, entretanto, não possuem o mesmo problema. Ao contrário de grupos privados que se arriscam em áreas diversas por meio de empréstimos, elas têm apresentado muito mais liquidez e consistência nas compras.
Também na área portuária, um setor que tem crescido em interesse por parte do governo chinês, a estatal China Communications Construction Company (CCCC), está investindo R$ 2 bilhões para construir um porto no Maranhão, formando assim duas rotas de escoamento da produção agrícola brasileira, ao sul e ao norte do país.
Tendo comprado a empresa de engenharia Concremat, a CCCC investe ainda energia eólica, e no que depender do governo paulista, disputará concessões em rodovias.
A mesma State Grid tentou, sem sucesso, uma oferta para comprar a totalidade das ações.
Outra gigante de energia, a CTG, China Three Gorges – dona usina de 3 gargantas, a maior do planeta – adquiriu o controle de 14 hidrelétricas, além de participação de outras 3. A empresa, que venceu o leilão de privatização da CESP, é hoje a segunda maior geradora de energia com capital privado do país. Por meio da EDP, a CTG também possui 11 parques eólicos no país.
A estatal chinesa é hoje a maior geradora privada de energia do Brasil, à frente da franco-belga Engie.
Ambas as empresas são ainda fortes concorrentes em projetos de privatização, como os da Eletrobras e Cemig.
Na área de petróleo, a CNPC, Corporação Nacional Chinesa de Petróleo, controladora da PetroChina, é sócia da Petrobras no pré-sal, graças à aquisição conjunta no leilão do campo de Libra. Outra estatal chinesa, a CNOOC, também é sócia no campo (ambas com 10% cada).
A empresa busca ainda retomar a construção do Comperj, complexo petroquímico da Petrobras no Rio de Janeiro.
Na maior descoberta do pré-sal, feita em 2011, a Petrobras é sócia da Shell, e da RepsolSinopec, mais uma estatal chinesa na área de petróleo.
A estatal chinesa também assinou um acordo de coprodução e uso da tecnologia 5G com a Rede Globo.
Na parte estatal, entretanto, a China possui um foco relativamente bem definido: trata-se de criar e garantir infraestrutura para que os chineses possam importar alimentos e outras commodities necessárias para sua população.
São investimentos legítimos, e bem-vindos em um país que carece tanto de infraestrutura. O dinheiro barato que chineses conseguem ao acumular recursos por suas exportações tem capacidade de impactar positivamente o país.
É preciso, entretanto, ter uma certa cautela quando falamos em facilitar a exportações de commodities para a China.
Apesar dos dólares que entram aqui, gerando renda e consumo para a população, a questão ambiental não pode ser desconsiderada.
O impacto causado por grandes projetos que facilitam a exploração de riquezas naturais brasileiras é considerável e nossos padrões não podem ceder ao apetite desenfreado chinês.
Há que se considerar que a conta ambiental é fundamental para o país sob diversos aspectos e, neste caso, não há investimento externo que compense o possível dano à imagem brasileira.