Fonte: Folha de S. Paulo
Desinformação e corte de gastos são entrave para sindicalização

O Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo, amanheceu mais movimentado do que de costume nesta segunda-feira (16).
Retrato do desemprego que atingia 13,2 milhões de brasileiros no trimestre encerrado em maio.
O volume de interessados pegou a organização de surpresa. Segundo o sindicato, os primeiros candidatos chegaram já no fim da noite de domingo (15).
Letícia dos Santos Silva, 33, e o marido, Welligton, entraram na fila às 5 horas. Ambos estão desempregados há cerca de dois meses e têm quatro filhos para sustentar. "Estamos aqui porque temos aluguel para pagar", diz Letícia.
Ela estava de olho em vagas de operadora de caixa, área em que já trabalhou, e ele, de estoquista.
Além de fazer frente à situação do desemprego no país, a iniciativa do Secsp é uma tentativa de atrair filiados após a reforma trabalhista, em vigor desde novembro, tornar o imposto sindical facultativo e
derrubar a arrecadação dos sindicatos.
"É uma resposta pela valorização do movimento sindical e um caminho para aperfeiçoarmos a relação com as empresas. Agora, com o predomínio do negociado sobre o legislado, vamos ter que amadurecer as negociações coletivas", diz Ricardo Patah, presidente do sindicato e da UGT (União Geral dos Trabalhadores), central à qual o Secsp é filiado.
Foram distribuídas 5.000 senhas, mas, diante da fila que se desenrolava em caracol por todo o Vale do Anhangabaú, o sindicato decidiu limitar o atendimento desta segunda a 1.600 pessoas. O restante será atendido em grupos de 800 pessoas ao longo da semana, de acordo com a cor de cada senha.
O sindicato negocia também com as empresas uma oferta adicional de 500 vagas para a próxima semana.
A mudança na dinâmica do processo deixou os candidatos perdidos. Muitos se aglomeravam na porta do sindicato para tirar dúvidas e reclamavam que a comunicação confusa havia dispersado pessoas da fila.
Uma funcionária do sindicato disse que houve casos de pessoas vendendo suas senhas na fila, após terem sido atendidas.
Outros que não chegaram a tempo de se inscrever entregavam seus currículos a funcionários na porta ao longo de toda a tarde.
"É o primeiro feirão, mas o trabalho de vaga social já existe, costumamos receber currículos e encaminhar quando há vagas", explica Cleonice Caetano, diretora do departamento de assistência social do Secsp.
SINDICALIZAÇÃO
Enquanto esperavam, os candidatos eram abordados por diretores e membros do sindicato, que explicavam como seria o processo seletivo e também como funcionava a entidade. Cerca de 28 diretores e mais de 30 militantes foram mobilizados para a empreitada.
O Secsp já chegou a registrar 50 mil filiados, hoje tem 30 mil, de uma base de 400 mil trabalhadores. "Só no ano passado fizemos 150 mil homologações", diz Patah.
Desinformação e contenção de gastos se mostraram as principais barreiras para uma eventual associação, cuja mensalidade é de R$ 30.
"É importante se filiar, mas neste momento é complicado, de onde vou tirar o dinheiro?", questiona Ana Carolina Toneo, formada em marketing e sem emprego com carteira assinada há dois anos. "Só fiz bicos, estou aceitando a vaga que vier", completa.
Os haitianos Louis Pierre, 38, Oska Bellevue, 41, e Jean Alix Joseph, 54, estão no Brasil há cerca dois anos.
Tiveram empregos diversos, como pedreiro e ajudante de cozinha. Bellevue considera o movimento sindical do país forte. "Ele é importante porque há empregadores que abusam, e nós não queremos problema, só queremos trabalhar", afirma. Ele diz, no entanto, que não teria condições de pagar para se associar.
O viúvo Arnaldo José Correra, 60, já foi filiado ao sindicato dos taxistas por dois anos, mas desistiu porque achava que a entidade "não fazia nada".
"Precisaria saber como está o sindicato [dos comerciários], como funciona e quais são os benefícios para pensar em me filiar. O sindicato é importante se ajudar o trabalhador", afirma. Ele está desempregado desde novembro e, segundo Arnaldo, faltam dois anos para que consiga se aposentar.
Ícaro de Oliveira, 18, que busca o primeiro emprego, se diz mais cético. "Prefiro não me filiar, acho que o sindicato é relevante para alguns, mas não para todos", afirma.
"É uma categoria difícil de filiar, porque é dispersa e tem uma rotatividade grande. Além disso, há muitas pequenas empresas em que a relação do trabalhador e do patrão é muito próxima, muitos acabam não se associando por medo", diz Patah.
Dentro do prédio do sindicato, candidatos se deslocavam de um andar a outro, participando em sequência de vários processos seletivos.
Vivian Donato, 42, é professora e está desempregada há três anos. Enquanto espera abertura de concurso para a rede pública, se candidatou para vagas diversas no mutirão.
"Achei uma boa iniciativa, eu me sindicalizaria se passasse no processo", afirma.
SELEÇÃO
De acordo com Patah, a maioria das vagas disponíveis no mutirão tem um salário médio de R$ 1.300. "Queremos diversificar com vagas de até R$ 5.000 futuramente."
O recrutamento acontece até as 17h na sede do sindicato (Rua Formosa, 99) em São Paulo. Há vagas como de operador de caixa e vendedor em grandes redes de farmácias, materiais de construção e supermercados, entre outros.
Os departamentos de recursos humanos das companhias estão no sindicato para iniciar o processo seletivo dos candidatos, com entrevistas e análise de currículo.
O candidato deve apresentar RG, CPF e comprovante de residência, além de seu currículo.
No Carrefour, por exemplo, a etapa no sindicato envolve um teste com 12 questões de português, matemática e conhecimentos gerais e uma redação. Até sexta-feira (20), quem passar será chamado para uma dinâmica e entrevistas com os gerentes das lojas.
Algumas empresas, como redes de supermercados, aceitam candidatos sem experiência ou ensino médio. Outras são mais restritivas, como a Clovis Calçados, que busca profissionais que já tenham trabalho no segmento.
Há também um posto do CAT (Centro de Apoio ao Trabalhador) no local para a emissão de carteira de trabalho para quem ainda não tiver o documento —é necessário apresentar RG ou outro documento oficial, orienta o sindicato.