Fonte: UOL
O TCU (Tribunal de Contas da União) abriu um procedimento de investigação sobre os bônus e PLRs (programas de Participação nos Lucros e Resultados) das empresas estatais federais ou com participação acionária da União. Além de auditar o montante distribuído nestas premiações aos funcionários, diretores e executivos das empresas públicas, o órgão de controle pretende averiguar qual o grau de dependência de recursos do Tesouro Nacional que elas apresentaram nos últimos cinco anos e se as bonificações concedidas justificam-se frente aos resultados demonstrados.
A decisão foi tomada no dia 11 de janeiro pelo presidente da corte, Raimundo Carreiro. A Petrobras, por exemplo, pagou bônus a seus funcionários referente ao ano de 2014,
quando apresentou um prejuízo de R$ 22 bilhões, por que as metas operacionais foram batidas, apesar do resultado financeiro ruim.
De acordo com dados da Sest (Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais) do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, nos últimos cinco anos, 23 empresas públicas instituíram PLRs para seus trabalhadores. Entre elas Caixa Econômica Federal, Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), Eletrobras, Petrobras e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Estes programas e recursos nunca foram fiscalizados de forma sistemática pelos órgãos de controle. Nas quatro empresas citadas acima, há suspeitas de corrupção sendo investigadas na Operação Lava Jato ou outras.
Segundo o presidente do TCU, não se sabe quanto é gasto nestas remunerações extra. Para ele, a fiscalização é importante no atual contexto de déficit público fora de controle --só em 2017
o déficit primário foi de R$ 124 bilhões, com a previsão de R$ 159 bilhões para 2018. De acordo com Carreiro, o desequilíbrio nas contas públicas possui relação direta com a gestão das estatais.
Algumas empresas públicas que tiveram seu plano de participação nos lucros e resultados aprovados pela Sest de 2013 a 2017 deram prejuízo à União. Para o TCU, existe a possibilidade de que dividendos e premiações para altos funcionários tenham sido distribuídos de forma equivocada ou que as regras criadas para tal não beneficiem a União, principal dona dos negócios.
"Há aspectos específicos atinentes à gestão das empresas estatais e, ainda, ao relacionamento entre essas entidades e a União que podem estar contribuindo para a persistência da deterioração das contas públicas", diz Carreiro no despacho que abriu a investigação. "Um aspecto específico se refere a programas de participação nos lucros ou resultados - PLR aos dirigentes e aos quadros funcionais de empresas estatais."
O valor global de tais programas pode apresentar materialidade
significativa e, em um contexto de restrição fiscal como o atual, tais
distribuições devem ser analisadas sob uma ótica ainda mais rigorosa
Raimundo Carreiro, presidente do TCU
Petrobras deu bônus em ano de prejuízo histórico
Em 2014, a Petrobras apresentou um prejuízo de R$ 22 bilhões, em grande parte pela contabilização das perdas com os desvios dos esquemas de corrupção descobertos na petroleira a partir da Operação Lava Jato. Apesar disso, em 2015 os 55 mil funcionários da empresa e suas subsidiárias --incluindo diretores e altos executivos -- receberam o bônus em dinheiro referente ao resultado do ano anterior,
o pior para o Brasil em quase 30 anos. Procurada, a Petrobras não respondeu aos pedidos de informação até a publicação desta reportagem.
De acordo com informações da FUP (Federação Única dos Petroleiros) na época, essas bonificações custaram R$ 1 bilhão aos cofres da companhia. No mesmo ano, os acionistas não receberam dividendos.
Em 2015, a Petrobras apresentou novo prejuízo, e
desta vez os funcionários não receberam o bônus porque as metas operacionais estabelecidas (aumento da produção e diminuição do custo por barril de petróleo, por exemplo) não foram cumpridas. Na empresa, convenção coletiva com os empregados define que a bonificação não leva em conta resultados financeiros, apenas operacionais -- a
direção da empresa quer mudar o cálculo, mas enfrenta resistência de sindicatos de funcionários.
"Isso aconteceu na crise de 2008 nos Estados Unidos", afirma o professor Hélio Janny Teixeira, da FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP (Universidade de São Paulo). "As montadoras de veículos estavam quebrando, recebendo ajudas bilionárias do governo, e os altos executivos ganharam seus bônus. Foi um escândalo e gerou uma discussão enorme, mas não tinha nada de ilegal", diz.
Mudança de nome e cálculos distintos
Segundo o professor, a situação é comum no mercado. "Tanto que a maioria das empresas mudou o nome de PLR para PPR - Programa de Participação nos Resultados", afirma. "O resultado é um conceito mais amplo que o lucro. Muitas vezes a empresa não deu lucro, mas bateu metas importantes que, em um futuro próximo, podem gerar lucro ou crescimento", diz.
De acordo com ele, a forma como as bonificações são calculadas varia de empresa para empresa. "Muitos bancos de investimento possuem uma política agressiva de remuneração por resultados financeiros, e isso é bom para os donos e acionistas e para os funcionários. Vai de caso a caso e setor a setor, mas as duas formas estão corretas", diz.
Teixeira vê uma contradição entre os trabalhadores de uma empresa e seus altos executivos serem bonificados quando os acionistas estão tendo prejuízo, mas diz que essa é uma questão difícil também na iniciativa privada. "Não adianta cortar os bônus operacionais se no mercado em questão isso é praticado. O que a empresa vai conseguir é perder profissionais para a concorrência", diz o professor da FEA.
Por um lado é estranho dar bônus em uma empresa que não
deu lucro para seu dono, mas por outro é necessário recompensar
os funcionários de maneira a mantê-los estimulados e comprometidos
Hélio Janny Teixeira, professor da FEA
"O importante é a empresa pública ter uma gestão moderna, que espelhe as melhores práticas das empresas privadas", afirma Teixeira. "Quando isso não acontece o que temos são empresas ineficientes, deficitárias e que, nessa toada, acabam tendo que ser privatizadas."
Dependência
Serão alvo da fiscalização todas as empresas estatais federais que possuem programas de participação nos lucros para seus funcionários. Ao todo, o governo federal detém controle direto ou indireto de 149 empresas brasileiras. Destas, 18 dão prejuízo e dependem do aporte de verbas federais e outras 12, apesar de não darem prejuízo, consomem mais recursos do que dão de lucro para a União.