Fonte: Folha de S. Paulo
A queda histórica da inflação e a lenta recuperação do mercado de trabalho estão produzindo um duplo efeito sobre a economia. Isoladamente, criam pequenos ganhos extras, dando alívio para o orçamento familiar. Mas, somados, os valores, ainda que irrisórios e liberados a conta-gotas, estão movendo o consumo e tirando o país da recessão.
No trimestre que se encerrou em agosto, a renda média das pessoas ocupadas, descontada a inflação, chegou a R$ 2.105, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em relação a igual período do ano passado, individualmente, é como se cada brasileiro tivesse, na média, R$ 39 a mais no bolso.
O valor é pequeno, mas essa renda extra, combinada com 924 mil pessoas encontrando uma ocupação, geraram um bolo relevante: injetaram R$ 5 bilhões na economia, ainda segundo o IBGE.
Comida mais barata é o principal motor da reação. Em 12 meses, o preço da alimentação no domicílio caiu 5%. Jogou a inflação total para baixo. Sem esse efeito, ela estaria perto do dobro.
Para famílias ou indivíduos que ganham até cerca de R$ 2.300 por mês –2,5 salários mínimos–, a queda no preço dos alimentos representou economia de ao menos R$ 300 nos 12 meses até agosto, de acordo com dados da Tendências Consultoria.
Em março, quando a economia com comida começou a aparecer, o extra era bem menor, de apenas R$ 14.
"Quando se olha isoladamente, o alívio é pequeno no orçamento, mas é ele que tem canalizado recursos para outros produtos", diz João Morais, economista da consultoria Tendências.
BAIXA RENDA
O efeito da queda do preços dos alimentos é mais importante para as famílias de baixa renda, que comprometem ao menos 30% do orçamento com a alimentação.
Um exemplo que ilustra bem essa dinâmica é a relação entre o preço da cesta básica e o salário mínimo.
Há um ano, diz o economista Fernando Montero, da corretora Tullett Prebon, os R$ 880 do salário mínimo compravam uma cesta básica de R$ 701. Sobravam, então, R$ 179. Hoje, com a cesta básica custando R$ 643 e o mínimo em R$ 937, sobram R$ 294 -64% a mais.
As pessoas têm sentido mais confiança para gastar e reorganizar as finanças (veja histórias acima). Mas, como o dinheiro extra ainda é curto e o cenário, impreciso, a volta ao consumo é regrada.
Um site que compara preços, o Zoom, identificou um forte recuo nos valores de produtos da chamada linha branca, como fogão e máquina de lavar. A procura, porém, não reagiu na mesma proporção.
Os preços das geladeiras, por exemplo, caíram cerca de 30% de janeiro a agosto. No mesmo período, a queda nas vendas foi de 25%. A crise, diz Thiago Flores, diretor do site, ainda impõe certa cautela a muitos consumidores.
Para André Braz, economista do IBRE, da FGV, a folga proporcionada pelos preços dos alimentos só vai deixar de existir quando o valor da comida subir mais do que a inflação -o que ele descarta, ao menos até 2018.