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15/06/2016 - 07h16

No Dia de Santo Antônio, devotos pedem emprego novo, fim da crise e até ajuda para quitar dívidas


Fonte: O Globo
 
Desde que casou, há oito anos, o motorista Robson da Cruz reserva o dia 13 de junho para acender uma vela no convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, em agradecimento por ter encontrado o amor. Nesta segunda-feira, no entanto, foi outro motivo que o levou até o padroeiro: desempregado há dois meses, ele aproveitou o dia dedicado ao santo casamenteiro para pedir um trabalho novo.
 
— Meu matrimônio vai muito bem, obrigado. O problema é que estou duro — diz Robson, sem perder a fé: — Foi ele que me ajudou a casar, não vai me deixar na mão.
 
O caso não é isolado. A vocação para cupido do santo ficou de lado, nesta segunda, em meio a tantos pedidos por emprego e pelo fim da crise financeira.
 
— Não tenho uma estatística das intenções (de oração), mas não há dúvida de que a angústia pelo desemprego e pelas finanças é maior este ano — diz o arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, e conclui: — É claro que pedimos a intercessão, para que o país consiga gerar emprego e ter como pagar as pessoas. Além disso, cada um tem que fazer a sua parte também.
 
A professora aposentada do estado Luiza Fiardes, de 65 anos, rogou ao santo para que sua aposentadoria seja paga em dia nos próximos meses.
 
— Vim pedir a Santo Antônio que faça o governador enxergar a gravidade disso. Dediquei 30 anos da vida ao estado e nunca achei que chegaria a essa idade com as contas atrasadas e sem saber o que esperar do mês seguinte — diz.
 
O aeroportuário Julio Cesar Miranda, de 55 anos, pediu uma ajudinha dos céus para quitar as dívidas. Ele é servidor federal e teve o salário achatado por causa da crise.
 
— Primeiro cortaram as horas extras, depois o adicional de periculosidade, e agora o noturno. Tenho três consignados, que consomem metade do meu salário — desabafa.
 
Para o reitor do convento, frei José Pereira, a mudança no teor dos pedidos não contrasta com a figura do santo.
 
— É de se esperar, com mais de 11 milhões de desempregados, mas Santo Antônio sempre teve uma conotação profundamente social, olhando pelos pobres e necessitados.
 
A origem do pãozinho
 
A história do “pãozinho de Santo Antônio” remonta a um fato curioso da vida do santo que é assim narrado: Antônio comovia-se tanto com a pobreza que, certa vez, distribuiu aos pobres todos os pães do convento em que vivia. O frade padeiro ficou em apuros, quando, na hora da refeição, percebeu que não tinha o que dar de comer aos frades. Desesperado, foi contar ao santo o ocorrido. Antônio mandou que ele verificasse melhor o lugar em que tinha deixado os pães. O Irmão padeiro voltou surpreso: os cestos transbordavam de pães. Até hoje na devoção popular o pãozinho é colocado pelos fiéis em sacos de arroz ou farinha, com a fé de que, assim, nunca lhes faltará o alimento.
 
Fama de casamenteiro
 
Santo Antônio nasceu em Portugal, em 1195, e viveu em Pádua, na Itália. Já na Idade Média ficou conhecido como o santo casamenteiro. De notório saber teológico, ele pregava até para o Papa Gregório XI. Em seus sermões, não costumava falar sobre casamento, mas ganhou a fama por ajudar moças humildes a obter um dote para casar, como exigia a época. Conta a lenda que, em Nápoles, uma moça pobre que queria casar pediu a ajuda do santo. Ele recomendou que ela fosse até um comerciante e este, milagrosamente, deu à moça 400 escudos de prata.
 
Pedido até do convento
 
Até o frei José Pereira, reitor do santuário e convento de Santo Antônio, aproveitou a festa do padroeiro para pedir uma ajudinha financeira.
 
— Precisamos de um novo elevador, que chegue até o templo. Hoje, quem usa o elevador ainda precisa subir alguns lances de escada. Nesta segunda-feira recebemos uma senhora de 102 anos, e nós temos que acolher a todos — explica.
 
Esse não é o único problema nas finanças da igreja. As obras de restauração do templo, que ficariam prontas este ano, estão paradas. Depois de R$ 25 milhões terem sido empenhados para o projeto, a empresa responsável pela execução decretou falência.
 
— Em 2013 as obras começaram a parar e a questão está na Justiça, e nós criamos uma nova administração para tentar resgatar a credibilidade. Nós, frades, não temos cargos, temos encargos. Estamos rezando também, sempre contando com uma providência espiritual — diz o religioso.